O livro FOTOJORNALISMO BRASILEIRO – Realidade e Linguagem faz uma abordagem das principais funções de um repórter fotográfico, mencionando aspectos históricos do fotojornalismo no Brasil, e fazendo algumas alusões ao equipamento e suas características.
Já na Introdução o autor, Ivan Lima, insere um dado histórico importante: “A fotografia inaugura o mass media visual, quando o retrato individual é substituído pelo retrato coletivo” (p.9). Ainda sobre o perfil histórico, o autor menciona que a invenção da fotografia ocorreu em 1822, na França – sendo que fotografia significa “escrever com a luz”, pois vem do grego phos (luz) e graphein (escrita) – e que até então os pintores, gravadores e escultores eram os que dominavam a cultura icônica; além disso, a invenção da fotografia permite que se veja um fato mesmo quando não se está presente no local em que esse fato ocorre.
O segundo capítulo, intitulado De que fotografia afinal estamos falando?, menciona dois tipos de fotografia, a pictural e a funcional: “O fotógrafo pictural exprime o que lhe interessa, o que ele acha que é belo. Ele não está interessado em informar e sim em formar. [...] Os fotógrafos funcionais, que fazem a fotografia de informação publicada nos jornais e revistas, pensam, antes de tudo, em seus leitores, seus destinatários; [...] o assunto é que é um objeto, e a fotografia o transmite” (p.15-16). Ivan Lima faz questão também de reforçar que a imagem e a escrita não substituem uma à outra, sendo coisas diferentes e complementares, e diz que a foto acompanha o texto para que “facilite a atenção do leitor para a notícia e informe sobre ela” (p.16). O autor faz ainda uma subclassificação da fotografia por tópicos, dividindo-os em três grupos: a fotografia social, que aborda política, economia e fatos gerais; a fotografia de esporte, que fixa o que a matéria descreve e/ou o que foi divulgado por outras mídias; e a fotografia cultural e de lazer, que ilustra o tema do qual a notícia trata.
O capítulo É repórter fotográfico ou fotógrafo de imprensa?, explica o porquê dessa duas denominações; segundo o autor, repórter fotográfico é utilizado, primeiramente, por ser essa a nomenclatura utilizada na lei para se referir a esses profissionais; depois, porque quando surgiu essa função nos jornais, o fotógrafo também saía a procura de notícias. “O repórter fotográfico é na verdade o jornalista (categoria repórter) que colhe a notícia com a câmera fotográfica, enquanto o seu colega repórter o faz com a caneta” (p.24). A denominação fotógrafo de imprensa viria, então, da situação atual desses profissionais nas redações do país, em que os fotógrafos são apenas fotógrafos, e não possuem ingerência nas pautas, como ocorre com os repórteres que cuidam do texto. “O fotógrafo de jornal tem uma função principal: a síntese” (p.27).
No quarto capítulo, A Reportagem, Ivan Lima faz uma abordagem teórica e uma um pouco mais voltada à prática, mencionando que a fotografia na reportagem é essencialmente informativa, e deve trazer essas informação de forma mais completa possível: “tudo tem de estar no mesmo quadro: os personagens e suas relações com o espaço e com a circunstância” (p.35). O autor aconselha o fotojornalista a usar roupas de cores neutras, evitar falar e evitar o usar ou flash, sempre buscando a maior discrição possível, para que possa captar a real natureza dos fatos – "A função do fotógrafo é captar o acontecimento da forma como ele se desenvolve sem jamais interferir nele” (p.36). Por último, o capítulo informa que a “notícia vinculada com fotografia em um jornal é sempre mias lida” (p.39).
O capítulo A Pauta, explica que, quando o fotógrafo não é deslocado para cobrir um evento inesperado, ele segue a pauta – “roteiro dos fatos que devem ser dados pela reportagem”. O autor denuncia também que, hoje em dia, os fotojornalistas não participam da elaboração pauta, apesar de que esse quadro mudou um pouco com o surgimento das agências de fotógrafos independentes, e com o aparecimento das revistas semanais de informação, que não desejavam apenas uma foto síntese: “o sintetismo do fato jornalístico em uma imagem que abranja o máximo de facetas possível e que determine a imagem significativa da realidade enfocada foi substituído pelo documentário não só de diversas facetas do fato como do mais número possível de fatos e acontecimentos que cercam aquele acontecimento maior” (p.45) – esses assuntos serão abordados mais adiante.
O capítulo O Equipamento Fotográfico traz uma abordagem mais técnica, mencionando os principais equipamentos utilizados no fotojornalismo brasileiro. De 1945 a 1954, a Rolleiflex 6x6cm era utilizada pela revista O Cruzeiro; a câmera tinha alta precisão, mas pouca rapidez – e por isso as fotos da época era montadas, constituindo os chamados “megafones”. Posteriormente, as empresas jornalísticas começaram a utilizar a Leica 24x36mm, que mantinha a qualidade e tinha a agilidade que faltava na sua “irmã mais velha”; foi com a utilização da Leica que surgiu a fotografia espontânea no Brasil, introduzida pelo fotógrafo João Medeiros. As câmeras Nikon 24x36mm também são largamente utilizadas no fotojornalismo brasileiro. O autor menciona os avanços tecnológicos ocorridos nas décadas de 60 e 70, com as invenções japonesas da célula de sulfureto de cádmio – que permitia a correta associação de diafragma e velocidade – e das lentes grande-angular e teleobjetiva.
O capítulo As lentes diferencia as lentes grande-angular e teleobjetiva, sendo a primeira caracterizada por aumentar a proximidade com a cena, precisando de baixas luzes e conferindo profundidade de campo, e a segunda como sendo a indicada para fotos de longa distância, especialmente recortes, pois reduz o campo visual – por esses motivos, Ivan Lima afirma que “o único caso concreto do uso das teleobjetivas em fotojornalismo é na fotografia esportiva”.
O oitavo capítulo, intitulado Legenda, trata desta peça que quase sempre acompanha as fotografias no jornalismo. O autor define três funções para a legenda: a complementar, que “complementa a parte abstrata que a imagem não contém”, a explicativa, que indica para o leitor os elementos abstratos que ele não poderia identificar, e a evocadora, que aborda não só os aspectos abstratos, mas também introduz outras perspectivas sobre o assunto. Ivan Lima alerta ainda para o fato de que a legenda nunca deve descrever nem interpretar a fotografia.
O capítulo O Corte é curto e objetivo, e define o corte como sendo a tática utilizada pelo editor para adequar a fotografia ao espaço que se tem na chamada paginação, e para “retirar os elementos inúteis, dispensáveis” que essa fotografia possa conter e que possam prejudicar a sua leitura.
O capítulo dez, A Edição, ressalta a importância da fotografia para chamar a atenção do leitor, seja pelo alto poder informativo da imagem, seja pelo seu simbolismo. Sobre esse tema, foram extraídos do livro alguns trechos explicativos: “Os olhos vêem antes de lerem. [...] Assim, quando o editor de um jornal quer reforçar e prolongar o impacto da notícia sobre o leitor, a fotografia é ressaltada” (p.63); “O noticiário da televisão aumenta o interesse pelo jornal no dia seguinte, pois a televisão apresenta a informação sob a forma de seqüência de imagens, rapidamente. O jornal tem que mostrar o momento mais importante dessa notícia e o seu desenvolvimento, com uma imagem que mereça a atenção particular para ressaltá-la” (p.66); "Na edição de um jornal nem sempre a mais bela fotografia é a que vai ser publicada, mas a melhor do ponto de vista da informação e da lisibilidade. [...] Quando não há uma fotografia que mostre a notícia de forma informativa o suficiente, o editor pode optar por uma fotografia simbólica” (p.68).
O capítulo O Fotojornalismo em cores e as revistas semanais de informação faz uma abordagem histórica do tema. O autor cita a revista Veja – criada em 1968, nos moldes da revista estadunidense Times, “com injeção de capital norte-americano nos meios de comunicação no Brasil, facilitada pelo golpe militar de 1964 e pelo AI-5 de 1968” (p.72) – como a primeira revista de informação surgida no Brasil, e a propulsora do gênero no país; em 1970, Ivan Lima cita a criação da revista Realidade, pela Editora Abril, e em 1976, da revista Istoé, Editora Três, a primeira que abalou a supremacia da Veja. O autor destaca a importância do surgimento da Istoé na criação das agências de fotógrafos, pelo fato de que a publicação se dispunha a comprar o material de qualidade fornecido pelas agências, atitude que acabou servindo de exemplo a outras empresas do ramo de comunicação: “IstoÉ seguiria os moldes de pensamento das democracia européias (França, Itália e Alemanha), que abrem a análise a intelectuais, professores, pesquisadores e até cientistas. [...] Como a democracia no país não se consolidou, em poucos anos a experiência da IstoÉ passou a ser um modelo, e ela foi comprada por um grande grupo, voltando tudo como antes” (p.73).
O capítulo doze, As notícias em cores, estabelece uma diferenciação entre os objetivos e as utilizações das fotos em preto e branco e das fotos em cores. As primeiras são utilizadas principalmente em jornais – cujo objetivo é transmitir a informação – e as últimas em revistas – que buscam aprofundar a questão e utilizam, em geral, várias fotos em uma mesma reportagem. Para as fotos preto e branco, não importa o tipo de luz, mas a sua quantidade, diferentemente do que ocorre com a fotografia em cores – a qual, apesar de mais obvia e mais limita, é mais atraente, ou seja, melhor, do ponto de vista da publicidade: “pesquisas demonstram que as vendas aumentam proporcionalmente ao aumento das páginas em cores” (p.83).
O capítulo O fotojornalismo independente: os novos caminhos e as agências de fotógrafos traça um perfil histórico que vai desde o surgimento da Magnum, em 1947, na França – a primeira agência de fotógrafos independentes –, passando pela criação da F4, em 1978, em São Paulo – uma das únicas dentre as muitas agências surgidas nesse período que se mantém em funcionamento até os dias de hoje. Ivan Lima também menciona uma série de fotógrafos consagrados, a nível mundial e nacional, e faz um breve histórico dos principais trabalhos de alguns deles – como Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, Juca Martins e Nair Benedicto, por exemplo.
O autor conclui o livro expondo a situação das agências independentes no Brasil, e faz uma breve análise da situação da imprensa brasileira e do papel dos fotojornalistas nesse cenário: “O domínio da imprensa brasileira está em poucas mãos. A informação brasileira é dominada por uma dezena de grandes jornais e revistas semanais. [...] Todos se situam politicamente na direita, oscilando levemente até o liberalismo de centro-direita do espectro político. [...] Como o fundamento das agências de fotógrafos é claramente progressista, cabe-lhes o avanço desse gênero de trabalho coletivo, pioneiras que são nesse sistema de autogestão. Aos fotógrafos independentes cabe uma parte da tarefa de furar as regras do sistema conservador, modificar a ótica do jornalismo, andar pra frente” (p.90).
Ref. Bibliográficas - Oct.28th.2004
LIMA, Ivan. Fotojornalismo Brasileiro – Realidade e Linguagem. Rio de Janeiro: Fotografia Brasileira, 1989.
entregue em Oct.28th.2004